Dessa travessia, dessa experiência, dessa pausa, vou tirar várias lições, as quais pensei em dividir com a intenção exclusiva de ajudar de alguma forma a quem precise de apoio. Cada passo dessa história poderá se tornar um sucesso, uma poesia, um exemplo. Depende apenas de mim...

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sexta-feira, 11 de março de 2011

Retomada do caminho...

     Colonia del Sacramiento, em julho de 2007.


Hoje acertei os ponteiros com a revisão dos "países baixos" como dizia a minha avó... O médico, ao me examinar, exclamou: "tá feio....mas tá bonito"... hehehehe
Tocou no "enxerido" e disse que está sensivelmente menor, que as radios estão indo direto ao ponto e muito bom o resultado. Entretanto, falou que eu preciso estar consciente de que vão continuar bombardeando em campo mais apertado, mas no mesmo lugar. Isso poderá ulcerar mais ainda a lesão, pode ser que tenhamos que parar novamente.  Ai... que dor!!!!
Falou também que isso independe dos meus cuidados, são normais essas queimaduras...mas eu to colocando bastante óleo, na esperança de que a lesão feche e depois de comporte bem, se mantendo fechada.
OK, sei que tenho 13 aplicações em média e que vem agora um período muito duro em termos físicos, mais complexo do que o anterior.
Na semana que vem a quimio vai potencializar tudo, então...pode ser que eu desapareça por uns dias, mas vocês me encontram afundada na poltrona...hehehe....

Hoje me sinto muito bem, estou medicada contra as famosas náuseas,  dirigi meu carro e fiz muita coisa à tarde, percebo que estou mais forte novamente. Cheguei a quase me sentir "normal" outra vez...
Acabei o dia exausta, mas tomando sorvete com algumas amigas num café aqui perto.
Tem coisa melhor?
Tem sim, mas isso é pra depois da era do ventilador.
(Pensei em viagens, oras.....)
...hehehe....

quinta-feira, 10 de março de 2011

Day after...

Fotografei esses pássaros na cerca, bem quando saí do consultório do meu médico, cheia de certezas e alegria de que tudo está correndo dentro da normalidade. Lembrei de uma pauta com pássaros, que vi em algum lugar... Nesse caso aqui a maioria dos pássaros compõe  as notas mais agudas, mais elevadas, exatamente como eu estava me sentindo naquele momento. Os dois pássaros representando as notas mais graves, esses eu deixei lá no consultório, minhas preocupações foram deletadas.  Bom, né?



Pois me parece que o novo óleo está ajudando nas queimaduras, de vermelho vivo passaram para vinho desbotado....hehehehe....as virilhas estão como se eu tivesse tomado sol um dia inteiro, chegam a estar inchadas...  A ardência das feridas abertas diminuiu,tenho a pele fininha, sou alemoa branquinha e tudo lá embaixo está sendo bombardeado diariamente... É duro!!!!
Mas o que eu quero contar é que estou melhor, felizmente ainda tenho tempo até segunda para tratar da pele. Amanhã terei revisão, mas esse médico na maioria das vezes é muito duro na maneira de falar, assustando bastante quem está tentando ficar em pé o tempo todo. Muitas vezes ele balança meu equilíbrio com as suas informações.

O que eu sinto, fraqueza, cansaço, tudo é normal.  Alterno frio e quente de uma maneira ridicula, ora com sapatos de lã e cobertor, ora suando em bicas, isso também  é normal, são reações da rádio. Vocês tem que ver a novela que é  pra me alimentar, é um saco: preciso escutar o que meu corpo quer comer (vê se pode isso!!!), atualmente não posso ver batatas, arroz integral nem massas.... Hoje fiz aipim. Ontem à noite comi sanduiches com uma amiga aqui em casa. Anteontem passei na oliva pimentões, desceu redondinho.... Tudo sem agrotóxico, obvious.... Dias atrás comi o spaghetti de quinoa, caro pra burro, comi xingando o preço, bem sem gosto pra quem conhece quinoa, mas com verduras  entrou bem...Ahh, outra reação colateral da rádio é a diarréia instantânea,...... dá licença que eu tenho que ir ao banheiro, senão não chego a tempo....assim, do nada. Em seguida tudo bem de novo. São as alças intestinais que ficam com as irradiações e soltam um cheiro de borracha queimada!!!....hehehehehe.....
Bem, estou na 17a. radio, ainda faltam 13 para as 30 previstas (pré-vistas, podem oscilar), mas agora eles irão fechando o campo de irradiação, que estava amplo para pegar virilhas e outras cocitas, agora vão fechando em cima do bicho aos poucos. Haja pele pra aguentar tanta queimação...
Mas meu médico das quimios (meu santo médico) hoje me disse que em 15 anos nunca perdeu um cliente com esse problema, que eu não vou ser a primeira da lista dele!!!!   E me tranquilizou que está tudo absolutamente normal, é normal parar pelas queimaduras, é normal todas as reações que eu relatei.... e ainda por cima foi bonzinho e postergou a minha quimio para a semana que vem, graças!!!
Nesse findi vou comemorar...vou almoçar fora e comer coisas diferentes. Mas como não posso comer fora de casa frituras, nem verduras cruas, nem picantes, nem carnes, nem... nem...., vou ficando limitada. Mas pelo menos um peixinho, um camarãozinho, uma farofinha...
Aaaaaiiiii....afinal sou normal, né...

quarta-feira, 9 de março de 2011

Folgaaaaaaaaa.....

P.Alegre em vista noturna, desde a cobertura de um edifício na Rua Duque de Caxias.  Foto de 2008.


Hoje recebi uma folguinha até segunda-feira que vem, minhas fissuras viraram ferida aberta, quase desmaiei de dor ao ir ao banheiro hoje pela manhã.  Tive que deixar de ser corajosa e mostrar à equipe de radio o que estava contecendo e que eu não consegui reverter. A aplicação de radio fica reverberando dentro do organismo, fazendo seu trabalho. Os efeitos colaterais que o digam.
Além das enfermeiras, até o físico veio olhar, me deram um espacinho para recuperação, pois na segunda vão queimar novamente em cima do que está....mas é a última de uma etapa de 17 radios amplas. Minha Nossa Senhora!!!
Agora vem a época de focar no "enxerido" (viu Suzi??) e isso nos 13 dias de aplicação de radio faltantes. O que vai ser das feridas hoje abertas e espero que fechadas até segunda,  nem desconfio, qualquer coisa vocês vão me visitar lá no Mãe de Deus, internada e de bum-bum pra cima....ahahahahaha... (to rindo de nervosa...)
Daí, como ganhei folga da radio, o médico da quimio acompanhou, afinal eu preciso estar clinicamente bem. Meus exames mostraram que meu corpo reagiu bem à quimica que foi colocada, estou apta novamente a tomar a próxima quimio. Isso ficou para a outra semana.  Mas eu fiquei orgulhosa do meu organismo, ele é poderoso,  se recuperou plenamente da agressão química.... resta agora se recurar das queimaduras.
Vou caprichar com as novas pomadas, quem sabe revertemos esse problema até o findi.
Deus me ouça!!!

Samba, sambando...


Foto em baixa velocidade e em movimento.

Os passarinhos me chamam a atenção lá fora, na imensa figueira que abençoa a minha casa desde o início. Eles fazem um alarido e cantam de uma forma tão linda, deve ser para homenagear o dia esplendoroso que estamos vivendo.
Me alegra que eu possa escutar e vivenciar esse momento, em meio a essa trabalheira que está sendo fechar as fissuras abertas pela radio, pomadas e agora o roxo total da violeta genciana.
Quem já teve filho sabe que suspiramos quando estamos prontas de arrumar os babies, depois de uma boa sujada de fraldas. Limpamos, lavamos, secamos, colocamos pomada ou talco...  e no momento em que estamos nos considerando prontas...suspiros...se sujam de novo.... ai...ai...ai... comigo tem sido muitas vezes assim....efeitos colaterais da radio...mas assim como vem, passa logo. E a rotina recomeça, lava, seca, põe pomada, seca... o enclausuramento doméstico fica por conta disso, também da minha fraqueza momentânea e das dores de barriga de uma hora pra outra... Tomara que eu consiga fechar as fissuras com esses cuidados, tenho os feriados de Carnaval pra isso.
Isso dá samba...

sábado, 5 de março de 2011

Vontade versus carnaval...

   Redenção.

Não consigo achar a vontade de escrever, sumiu aquela veia poética, naufragou em meio às náuseas e pomadas... Realmente tem sido muito duro, estou no meio da quantidade prescrita de radios, a queimação é grande na pele delicada e branca, e pior ainda quando tem a quimio concomitante, é muito ruim se sentir assim.
Tenho sido medicada, está dando para levantar e pelo menos parecer bem. Ainda bem que a próxima quimio será a última junto com a radio, depois terminam as aplicações e continuam as quimios, minha esperança é de que os efeitos minimizem.
Mas vejam bem, estou contando apenas, jamais reclamando do que está acontecendo.
Vou ficar boa, sei disso, essa é apenas a travessia num deserto escaldante e sem chinelos. Queima mesmo, fazer o que, não é mesmo?  E os enjoos?? Que coisa ruim...
Meu ânimo é oscilante, me sinto enfraquecida, não sou mais a mesma pessoa de antes.
Ontem tentei ir ao super, já que estava me sentindo mais ou menos bem e louca para dirigir. Como é aqui pertinho, lá me fui, sentindo novamente o gostinho da liberdade de dirigir a minha vida pra onde eu quero e quando eu quero.
Doce ilusão... nunca me dei conta de quanta paciência se tem que ter no dia-a-dia normal. É fila  de espera aqui, caixas lotados, gente embromada pra pagar....lá pelas tantas eu tive que sentar no próprio carrinho de compras, me senti tontear.  Fui me apagando devagarinho e percebi que não posso bobear, voltei pra casa ligeiro...
Carnaval na frente da TV, existe programa melhor?   De momento eu tenho só na lembrança os meus carnavais passados, a realidade é outra, nessa travessia não tem festança...
O futuro fica para os outros carnavais.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Câncer, a palavra mortal.


    Feirinha do Brique, sábados pela manhã.

Quando se menciona a palavra “câncer”, as pessoas normalmente mudam o tom, baixam a voz ou olham para os lados, observem esse comportamento!!!  Falar a palavra “câncer” significa falar em morte triste e depauperada para a maioria das pessoas, pois os exemplos mal sucedidos são sempre passados oralmente com muito dó, os exemplos positivos ficam geralmente destinados e creditados à boa sorte da criatura em questão. O câncer que me aflige é o mesmo que aconteceu com a Ana Maria Braga, ela está aí perfeita e o meu médico disse que o dela era muito sério e com vários comprometimentos. Um belo exemplo ela deu, de valentia e coragem. Contaram que ela fazia o programa com a bolsinha de quimio pendurada... mostrando que estava confiante no seu taco. Uuuuuuiiii, nem me fale na bolsinha de quimio....
Tenho um primo-irmão, conceituado oncologista aqui de Porto Alegre, que sempre diz que de câncer não se morre tanto quanto de enfarto ou complicações cardíacas, além de outros problemas que não lembro. Existem muitos tratamentos e a prevenção precoce é a melhor forma de evitar. Eu sempre fiz prevenção e vejam como descobri o meu: casualmente!!!  Eu tinha acabado de comprar passagem para Londres, iríamos festejar 40 anos de amizade, eu e duas  amigas de uma vida inteira.... íamos a Liverpool festejar na caverna dos Beatles...., atravessar a Abbey Road e fotografar muito, afinal eles embalaram a nossa juventude!!!  Mas aquela hemorróida pequenina que me incomodava há poucos meses, tinha que sair dali  bem antes da viagem pra não ter problemas. Nunca pensei que seria um câncer, afinal a minha colonoscopia de prevenção estava dentro da validade, há apenas 10 meses eu havia feito uma e estava tudo perfeito!!!  
Nessas minhas andanças pelos locais que já contei, vejo nos olhos dos homens e de algumas mulheres o pânico atordoante, ou o desânimo de “chegou a minha hora”... Poucos são os que chegam à radioterapia ou na quimioterapia com cara de esperança, a maioria é taciturna, apreensiva, cabisbaixa, não fala muito.  A hora não é de sorrisos nem de brincadeiras, concordo, mas também não precisa ser séria demais, um pouco de leveza faz bem pra alma. Tá certo, a dor é grande, mas muitos perdem cabelo só pelo stress de saberem que tem câncer, informação passada por pessoas credenciadas.
Pessoalmente estou tomando muito cuidado com a minha cabeça, que é muito rápida para registrar os assuntos e depois ficar remoendo as coisas. Na radio tenho ido de vestido, pois lá na maca, embaixo da gigante e na hora H, é só levantar a saia e deixar que me posicionem (já contei isso aqui).  Assim, fazendo uma entrada e saída bem rápida, sem a ritualização de entrar em cabine, por avental verde, depois fazer o inverso, eu levo uns 5 minutos lá dentro e saio rapidamente, muito elegante com meus vestidos compridos.  Estratégias diversas...  Mas sei que até o final da etapa de radio eu não poderei ver mais as saias rodadas....mas tudo para me manter em alto astral. Gente, ficar em alto astral dá uma trabalheiraaaaaaaa.... a gente circula entre pessoas que querem ajudar mas que contam “causos” diversos de problemas passados, alterando a tua imagem do que está realmente acontecendo. São pessoas bem intencionadas, mas as palavras tem o poder de mexer com o delicado sistema de quem está tentando ficar o mais possível UP. 

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Mais um dia...


Hoje lá na hora da radio, que atrasou mais de meia hora, percebi que quando tu te confundes com os rostos crispados, existe uma despersonificação da dor, ela passa a ser coletiva. E quando a dor é coletiva, o fardo é mais leve.
A cumplicidade entre os que esperam a sua vez é demonstrada num sorriso amarelo, num olhar complacente, numa busca de informações com a clássica pergunta "onde é que...?".

Os raios do sol matutino  atravessam a porta de entrada da radioterapia, fazendo uma demonstração belíssima de um espectro de cores muito conhecido nosso.
Até o sol está junto nessa... o sol queima, a radio também.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Sem vontades...

    Flores em uma árvore no Parque da Redenção, primavera de 2010.

Estou travando uma verdadeira batalha contra as náuseas, tonturas e má disposição. Embora medicada contra os efeitos colaterais, a barra é pesada, não fico muito longe da poltrona de descanso. Saco isso. Mais saco ainda porque nem tenho vontade de pensar, só de dormir, e é o que estou fazendo. Baita dualidade, eu aqui mofando e a vida lá fora pulsando.
Enfim, eu reclamo sim, até preciso!!!,  mas também reconheço as coisas boas: meu gosto por alimentos passou a ser mais específico: pirê + pirê + pirê, no intervalo tomate. À noite mais pirê, mais tomate, mais figos secos que a Verinha trouxe....e dê-lhe água, nunca tomei tanta água nessa vida. Descobri que água com suco de maçã natural me fazem melhorar das náuseas, então sou um lava-jato, por cima e por baixo.
Estou diferente, meus cheiros são diferentes, não tolero perfumes....eu que tenho coleção deles e que sempre andei perfumadíssima. Meu cheiro é de pomada, sabão neutro e borracha queimada....hehehe.... não riam, é mesmo.
Hoje lá na hora da radio avisei pros meninos que não brincava mais com eles, tava começando a doer e assim eu não brinco mais. Me revoltei com os vestidos e iniciei a era das calças de algodão, mas sempre sem o avental verde. É só baixar e pronto. Que sem graça tudo isso.
Sexta terei um belo encontro marcado com os OLHOS AZUIS, meu médico lindo de morrer, pra acertar detalhes, afinal lá se vão 10 radios, mais ou menos 1/3 da quantidade prevista.
Se tudo correr melhor, amanhã estarei mais disposta  e terei mais olhos de ver e ouvidos pra ouvir, quem sabe o Tio Zé com suas homeopatias me dá uma polidinha....uma acertadinha nos ponteiros.
Mas uma coisa eu me dei conta hoje: minha mãe arranjou tempo para repassar as suas receitas de familia ao meu lado, isso nunca aconteceu antes por falta de tempo dela e meu. Precisamos estar realmente paradas para isso acontecer. Se nunca paramos...a vida nos parou, vamos aproveitar!!!

domingo, 20 de fevereiro de 2011

4 longos dias...

        Janela na Igreja de Soltau, Alemanha, onde o Pastor Gehrs foi pastor por 50 anos -  foto de 2008
No silêncio da sala de estar, escutando apenas o andar ritmado do relógio de parede, faço companhia a mim mesma nessa manhã de domingo. Aliás, não estou só, enquanto o resto do pessoal da casa ainda dorme, meu gato e meus cachorros estão aqui comigo, o gato respeitosamente sentado num tapetinho no início da sala e  os cachorros do lado de fora, encostados nas portas de vidro do jardim.
Longos 4 dias, muito longos e onde nem tudo foram flores...
Nem tão bons, nem tão ruins. Um episódio só de enjôo, mas dias de muita prostração. Afundei na poltrona de descanso e dali quase não saí, oscilando entre calor e frio, entre muita sede e inapetência, entre o susto e a tristeza de estar ali, sem ação. À mercê da química.
Não estou muito boa para escrever, o “porta CD” está quase vazio, acho que até amanhã pela manhã deverá ter terminado. Amanhã mais radio, tá começando a incomodar a queimação, preciso de mais remédios, pomadas.
Vamos em frente, não posso pensar muito, tenho apenas que obedecer aos calendários fixados pelos oncologistas senhores do assunto e tentar passar da melhor maneira possível.
Agradeço a todos os telefonemas, desculpem se não atendi a alguns, realmente não deu.
Mas se todas as quimios forem como essa, tá de bom tamanho, dá para encarar de uma forma mais tranqüila. Essa foi só a primeira.
PS – alguém me informa a que horas passa o próximo OVNI pra Plutão ???

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Foi roxaaaaaaaaa a primeira quimio....

    Minha filha tirou a foto muito rapidamente, o saquinho com a quimio roxa não apareceu direito...


O nervosismo era grande, tenho que confessar. Saímos cedo demais de casa contando com o trânsito entupido daquela hora, mas  acabamos chegando cedo demais, então fomos tomar cafezinho antes de subir para amenizar a espera.
Quando cheguei na salinha individual preparada para as iniciais das quimios, sentei e fiquei sozinha por minutos, deu para examinar tudo à volta, me centrar e principalmente observar lá fora, onde a vida era pulsante e pra onde eu queria voltar...  Cumprimentei o sol que chegava até mim através dos galhos de belos flamboyants, cujas copas estavam ao nível da sala onde eu me encontrava, o sol me devolveu seu calor banhando minha poltrona com os raios leves daquela hora da manhã...  A poesia existe em todos os lugares. Fui privilegiada com essa sala, pensei... linda, com sol e com o verde das árvores...muito bem, em frente!!!      Suspirei fundo e ao mesmo tempo entrou uma enfermeira.
Ela mexeu no acesso recém colocado, que me doía ainda  (me deu pavor ao ver que ela colocaria uma agulha ali), mas como eu estava com pomada anestésica, realmente quando eu me dei por conta, estava plugada num saquinho plástico que pingava rapidamente. Era o líquido inicial, preparatório. Eu estava ligada ao início da quimio. Duas lágrimas escorreram pelos cantos, o medo da dor ainda estava presente.
Bem, daí vieram as meninas, minha filha e minha sobrinha, para ficar comigo ali,  companhias mais do que  importantes  naquele  momento. Conversando e rindo o astral estava bom, mas ainda melhorou mais um pouco...
Em seguida chegou a enfermeira chefe, num salto azul marinho pra lá de alto...e eu observando tuuuuudo, seu uniforme, seu cabelo, sua fala direta mas carinhosa,   e até a falta do seu crachá. Como era mesmo o seu nome?    Ela começou a trocar os saquinhos, que depois ouvi elas chamarem de bolsinhas.
O tempo pára nesses momentos e damos importância aos mínimos detalhes, como se fosse pra ganhar tempo, acordar de um sonho e fugir para os galhos da árvore lá fora, banhados do sol que eu amo tanto...
Voltando pra real: nesse momento começou a troca de bolsinhas da quimio e eu ia receber a primeira bolsinha de quimio mesmo, a anterior era apenas a preparação: a bolsinha tinha líquido roxo, uns 200 ml roxos sim!!!!    Roxo... a cor de S. Germain, a cor da transmutação, a cor dos chacras superiores...  Pisquei pro sol, que era meu cúmplice!
AAAAhhhh não me contive, a alma perguntadeira saiu goela afora e começou a sessão dos porquês.... Afinal, eu havia recebido dos amigos aulas e aulas sobre as cores das quimios, a vermelha era a mais forte, a amarela médio média e a branca era a mais soft... Mas ninguém, ninguém mesmo me falou que tinha roxaaaaaa.....  e agora???   Me explique, por favor...   Mas bah, ela me deu uma outra lição sobre o ciclo de renovação das células e tipos de câncer, claro que sei que cada caso é um caso, mas aquela bolsinha ali era especial para casos como o meu, não tão agressivo.  Tá bem, pensei espantada  e conformada.   A enfermeira do sapato de salto alto e sentou na minha frente, com papéis nas mãos e postura de puxar conversa. Falou mais um tanto, de tudo, do que eu poderia passar e até como eu deveria me cuidar, minhas defesas vão ficar baixas e eu preciso me cuidar muito. Como ela saiu novamente, deu tempo de eu respirar fundo e me reposicionar na poltrona.....mas ela voltou em seguida com um suporte parecido com porta CD’s, que pode ser preso à cintura e que tem uma embalagem transparente dentro com a quimio que vou levar pra casa: líquido transparente!!!  Me colocou a coisa no corpo e fiquei independente, com alguns fios saindo da altura do pescoço e entrando na tal bolsinha. Nada mau o modelito, pode causar espanto na rua...
Mas o principal de tudo era como enfrentar os efeitos colaterais, o meu maior medo de todos. Recebi o nome de um remédio para náuseas e muitas instruções, achei que estava bem e vim embora. Estava terminada a sessão tortura emocional, tão amplamente esperada por mim, agora esvaziada pelo conhecimento...
Até agora, quase meia-noite, me sinto um pouco em falso e com uma dorzinha de cabeça lá atrás, que não incomoda muito. Mas o ânimo está bom, me enrolei num cobertor fininho e coloquei o espetacular Crok’s da minha filha e fui cumprimentar a Lua Cheia lá no jardim, pedindo a ela que me ajude a passar bem pelas quimios... Meu gato preto se enroscou nas pernas e ficamos ali os dois a pedir pra Grande Mãe a sua benevolência pra esse problema...
Juro que nunca vi a lua passar mal e nem sair do seu equilíbrio, disso ela deve entender muito.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

As diversas reações...


    Lagoa Mirim, Santa Vitória do Palmar, RS
Os tipos humanos que tenho encontrado fazendo a mesma coisa que eu são realmente muito diversos, heterogêneos. A doença assalta sem preconceito de lugar, cor, raça, idade, sexo, se resolve que vai se instalar ali naquele lugar, será ali, seja o lugar onde for.  Já estou achando que o meu tipo de CA é muito bom, não deforma à vista das outras pessoas, não aparece, vira churrasquinho mas ninguém vê...
Dias atrás no andar da quimio lá no Mãe de Deus, estive parada ao lado de uma senhora de cabelos bem branquinhos, ainda pensei comigo: “tadinha, nessa fase da vida com um problema desses...”. Daqui a pouco ela falou algo, eu respondi e estava sendo iniciada uma rápida conversa, quando ela me contou que os homens não tem a força das mulheres e que ela estava passando por maus tempos porque o marido não aceitava o que tinha. Era o marido que estava doente e não ela!!!   Espiei com o rabo do olho aquele homem que tinha sido bonito, sentado firmão, enquanto a esposa se virava com a documentação...Fiquei pensando que depois de uma vida inteira, os cabelos brancos atestavam isso, existem pessoas que se rebelam contra a “injustiça de Deus”.  Acho que essa deve ter sido uma vida perdida, sem valores espirituais sólidos. Fiquei penalizada dos dois.
Ao mesmo tempo, quando vou na radiologia COR lá na Orfanotrófio, vejo vans chegando do interior, trazendo pessoas diversas, mas em especial prestei atenção numa senhora velhinha que estava iniciando as radios junto comigo. Dessas pessoas de roça, simples e boas, acompanhada ora de uma filha, ora de um filho, sempre silenciosa e assustada. Anteontem, quando cheguei, essa senhora que nem sei o nome ainda, estava dormindo num dos sofás das salas de espera. Ao lado, seu filho me contou que ela não está agüentando o tirão, pois sai de Garibaldi as 4 da madrugada com a van e volta somente à noite. Nossa, me deu uma peninha e agradeci aos céus as inúmeras facilidades que tenho. Realmente os pretos-velhos me chamaram de “menininha de pouca fé”, agora vejo que eles tinham razão quando me passaram o pito.
Confesso que me deu  vontade de trazer a velhinha para a minha casa, se ela se gerisse sozinha até daria, mas não  posso fazer isso na estrutura atual.
Sou uma felizarda perto dos outros, vou é tratar de agradecer a tudo e a todos pra ficar de bem com o pessoal lá de cima e com o meu coração e meus propósitos de crescimento pessoal. Mas vou dizer uma verdade....nada é mais lindo do que elevar o pensamento através daquelas janelas banhadas pelo sol da manhã, em meio à natureza verdejante ao redor.
Como diz minha comadre de Maceió: “vamo muiééé...”

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Colocando o acesso.

      Barco ancorado na praia de Ipanema, já virou símbolo do local.


15/2/2011 -  Ontem à tarde fomos para o Hospital, meu estômago roncava e pedia por comida, é claro. Aliás, eu acho que nem contei que estou me alimentando quase que somente com produtos sem agrotóxicos, para não sobrecarregar o organismo com mais toxinas. Preciso ajudar o corpitcho a passar bem por esta fase, óóóóóó.... fase essa... à noite não durmo porque lá embaixo as coisas não se acomodam, dói mesmo. Toma água, levanta, toma remédio, a bexiga está reclamando muito seguido, o médico me explicou que é devido ao bombardeio da radio.
Então, chegando ao bloco cirúrgico do Mãe de Deus, reconhecidamente eu estava aflita, torcia as mãos sem parar. Pensando bem, eu não atuo  muito bem sem um almoço e sou medrosa pra dor por natureza, então estava justificada a inquietude. Fui logo chamada, mas tomei um super chá de banco já na primeira sala, que era a sala de entrevista. Nessa salinha estávamos em duas pessoas, a Bárbara e eu. A Bárbara eu estava conhecendo naquele momento, ficamos trocando figurinhas, como normalmente acontece em salas de espera.  Amenidades, na verdade para acalmar nossos espíritos.
Fomos chamadas para mais outra sala adiante, desta vez recebemos o lindo uniforme que tínhamos que vestir, de uma atendente nada simpática. Bem, de touca-camisolão-calçola-sapatilhas verdes, num modelito pra lá de audacioso, sentamos as duas para tomar mais um chá de banco na ante-sala do bloco cirúrgico. E com uma TV chatésima ligada, sem relógio, ficamos as duas ali, conversando. Mas acabamos atravessando  por vários caminhos construtivos  e a conversa produziu uma atmosfera de boas vibrações... imaginem duas figuras verdes  falando sobre o sentido da vida, filosofando ao pé das macas cirúrgicas...
Ao ser chamada, acompanhei o anestesista e fomos para dentro do dentro, que sensação!!!!  Essas sensações são sempre únicas, mescladas com o tempo que pára, o respeito pelo ambiente, a observação intensa, a sala em si com seus equipamentos  e o temor de que vão mexer em você.....
Dormi e acordei sem perceber nada e me pareceu que estava conversando com a equipe o tempo todo, foi tudo muito bem, mas saí de lá com meu braço precisando de uma tipóia, embaixo da axila a musculatura doía muito, embora a incisão tenha sido feita logo ao lado do pescoço, à direita. Em casa fui despida e vestida pela minha filha, que tomou conta de mim com amor... Estou adorando essa parte de ser paparicada...
Mais um fantasma que se foi, quando eu retornar ao centro cirúrgico será para me ver livre desse acesso e, então, estarei curada.

Já passei por vários inícios, mas agora começou realmente a travessia. De momento estou agarrada no corrimão da ponte esperando pela quinta-feira, dia da primeira quimio. Depois desse dia acho que matarei todos os fantasmas que se formaram na minha cabeça, de vez....(continuo achando que é normal diante do  desconhecido).  Enfim, to crescendo com esse monte de experiências e emoções, to ficando mais corajosa no fundo da minha alma.....hehehe...

Bem, to indo devagarito, ando bastante cansada e com meus projetos pela frente no legitimo compasso de espera. Nesse momento eu sou a coisa mais importante, mas meu temperamento tem se rebelado contra isso, sempre acho que to vagabundeando sem fazer nada...
Não tenho jeito mesmo...mas um dia eu aprendo...

Sabem, conto minúcias aqui com uma finalidade específica: muita gente pensa que todos que se deram bem nos problemas, se deram bem porque são sortudos, porque não sofreram tanto, etc, etc....é uma tendência da maioria das pessoas achar que só eles sofrem, ninguém mais sofre tanto ou passa por um pedaço complicado. Conto em detalhes algumas passagens justamente para mostrar que cada minuto é vivido intensamente, as dores são sentidas sim e a história vai sendo escrita com as polaridades em evidência, depende de nós o equilíbrio da condução.
E com leveza e observação, tudo passa melhor.

Tatuagem...


    Tive que fotografar essa bela árvore, no Cristal, suas cores são apaixonantes.

14/2/2011 – Levantar pela manhã e ficar sem café é o maior sacrifício pra mim. Adoro uma mesa de café da manhã, é a melhor refeição do dia!!!!  Por isso hoje levantei muito cedo para poder tomar e saborear um pretinho básico, pois depois disso era jejum até as 15 horas, hoje foi o dia de colocar o acesso.
Pela manhã fui fazer a radio e comecei a personalizar as pessoas, os jovens que manejam a gigante da radio são muito queridos, o Daniel e o Fabio. São especialistas em radio, me colocam e tiram da maca, manejam a gigante com precisão absoluta.  Já que vamos ficar muito próximos pelas semanas seguintes, nada como estabelecermos uma relação amistosa e cordial. Preciso de sorrisos, camaradagem, leveza,  e já perguntei se posso fotografar a fera gigante, resposta positiva. O nome da fera é acelerador linear.  Gostei deles.
A aplicação hoje foi mais tranqüila pra mim, embora eu estivesse me sentindo nervosa.  Ahhh sssimmmm... uma novidade... eles me  tatuaram em três pontos distintos...ainda  não  fui  lá olhar pra ver o que foi que  aprontaram. Está inaugurada uma nova era no meu corpo....hehehee....logo eu que nunca quis me tatuar....Mas tenho que dizer que foi só uma picadinha mesmo, nada de mais.
Bem, hoje à tarde vou para o bloco cirúrgico colocar o acesso, amanhã eu conto como foi. Tô apreensiva, é claro, uma criatura borrada das botas como eu, em termos chulos aqui do Rio Grandeeeeee.....

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Intervalo.

     Teia na chuva e vento, molha e pesa mas não desmancha. Homenagem às mulheres da teia da minha vida.


13/02/2011 – Me dei conta de que estou travando o anúncio de que o blog está pronto... mais uma vez o problema de me expor volta à tona. É uma situação estranha, coisas tão íntimas numa rede mundial, mas daí vem aquela estorinha do exemplo... Quando eu estava com a perna quebrada, nos idos de 2002, fiquei 1 longo ano em cadeira de rodas. Nesse meio tempo produzi muitos textos bons, porém sem colocar nada na internet. Procurei muito outros exemplos de pessoas quebradas que falassem dos momentos que eu estava vivendo, mas não achei quase nada. Mas o pouco que achei me valeu muitíssimo: um exemplo de como se batia os pés para acelerar o processo de calcificação e de que naquele caso (o mesmo caso que o meu) só restava é ter paciência, demorava mesmo para curar...
Entretanto, nesse caso de agora, quem sabe com o blog eu possa ajudar alguém a lidar melhor com o assunto???  Não sou  o melhor dos exemplos, pois exatamente estou confessando aqui meus medos, mas como diz um dos médicos: “se tu não tivesses medo, aí é que eu ficaria preocupado, estarias fora da real”...  Então tá, vamos contar o que se passa, farei a minha parte, quem não achar legal que troque o canal !!!!
Hoje, domingo, fiz bolo natureba, recebi visitas, vi filme, almocei no meu irmão... e  estou psicologicamente me preparando para amanhã ter nova  radio e à tarde ir para o bloco cirúrgico do Mãe de Deus colocar o acesso, que ficará ali por meses. Não é o melhor dos programas, mas é o que eu preciso fazer para me livrar o mais rápido possível desse invasor-professor, que me escolheu sabe-se lá porque.
Já escolhi o vestido de amanhã....hehehehe.... por enquanto eu entro linda e maravilhosa, veremos depois da quimio  de quinta como ficarei ....
Torçam por mim, eu  já  tô  toda  torcida.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

A primeira radio.

    Dia 8 de dezembro de 2010 - festa de Oxum na praia de Ipanema/P.Alegre
11/2/2011 - Dizem por aí que a primeira vez a gente nunca esquece.....hehehehehe..... acho que vai ser  verdade   verdadeira....
A espera lá na Instituição é tranqüila, desde que fique na sala maior, onde tem TV falando das atualidades ... Sentar perto do local de entrada é fatal para o ânimo!!!  As pessoas, na sua maioria, estão abatidas, contando suas histórias de vida e seus problemas com o tratamento...um legítimo baixo astral. Poucas, mas muito poucas,  estão mais dispostas e com cara melhor. Estou lutando comigo mesma para ficar sempre vendo o lado positivo das coisas e com cara boa, portanto nada de sentar no corredor...
Ao ser chamada para a primeira aplicação, foi com relativa calma que entrei na sala principal, a da máquina-que-ainda-não-sei-o-nome. É uma gigante poderosa que gira sobre o seu próprio eixo e ao meu redor, buscando o melhor ângulo, o ângulo mais do que preciso, para bombardear o inimigo. Ainda vão me tatuar em 3 pontos, para marcar indelevelmente o ponto exato por onde os raios devem entrar..... que momennnnntooooooo!!!!
Resolvi ir sempre pra lá  de vestido, assim não preciso colocar aqueles aventais verdes para o instante da radio... É só levantar o vestido.... Tudo é mais rápido e não ritualiza a dor, o vestido ajuda a dar o toque informal. Ser mulher tem muitas vantagens e mulher de vestido de roda, mais ainda...
Deitada com as mãos cruzadas no peito, olhos fixos no teto e com a ordem de não movimentar um músculo sequer, meu coração acelerou e mentalmente comecei a cantar “Mãe Antiga”. Mas a minha aceleração mental era tanta que interrompi várias vezes a canção para prestar atenção nos barulhos da máquina, no girar dela, em mim mesma que estava com a respiração suspensa e quase cianótica... Naquele momento me lembrei das fotos em macro que fazemos, quando interrompemos a respiração para fotografar. Mais ou menos isso.... Minha vida em suspense por instantes.
Mas não doeu nadinha... foi mais o susto que fez a diferença. As recomendações são muitas, pois a gente tem algumas reações, mas nada que não possa ser superado. Cansaço, assaduras, evitar exposição ao sol, são as primeiras que eu registrei. Se os outros conseguiram passar por isso....eu também conseguirei!!!  Com o passar dos dias eu acostumo e quando estiver acostumada estará na hora de parar!!!
Preciso me manter animada, custe o que custar. 

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

A véspera.

     Atacama/outubro 2009

10/02/11 - Suadíssima e deitada embaixo de um ventilador de teto, pensava na significação do ANTES e do DEPOIS.
A espera é sufocante, como esse calor que anda nos visitando.
Acabaram de ligar, amanhã terei a primeira rádio, as informações são muitas e a curiosidade também.
Dói?  Não dói. Queima?  Mais por dentro, por fora só assa um pouco bastante. Nada que uma Maisena não resolva, depois de um banho de assento com camomila.
Quando penso em voltar lá naquele instituto, me dá uma angústia sem nome definido... tudo é bonito, moderno, mas...
Hoje sou uma mulher quieta, silenciosa por fora, em turbulência por dentro, dimensionando passado, presente e futuro na dependência de um tratamento radioterápico.
Cansada de tanto rodar para as preparações, tenho que tomar analgésico pra acalmar a dorzinha que existe lá por baixo.
O silêncio da noite da véspera me lembra que logo mais será amanhã, que é o grande dia.
Prefiro dormir, pra amanhã chegar mais depressa e terminar com essa espera....
Daí eu apago de vez esse emaranhado de pensamentos e expectativas.




Divagando sobre tudo...

    Uma fábrica de mantas, na serra gaúcha. Foto de 2004.


09/2/2011 - Obrigada. Obrigada.  Obrigada.
Nem adianta mais dizer essa palavrinha tão bonitinha.
É pouco.

Ir ao encontro do mais temido é um verdadeiro  atirar-se ao pé da dúvida, ser a carta do louco, lembram?  Mas pensando bem, quando não existe outra solução e a vida urge uma decisão, ou vai ou fica!!!!  E eu estou escolhendo a vida, honrando minha linhagem feminina, através das minhas ancestrais e principalmente preparando o meu futuro.
Aliás, depois da comprovada carga energética que recebi da egrégora de mulheres guerreiras a que tenho a honra de pertencer e que fazem a sua própria história individual e grupal,  nem penso mais na finitude da minha vida, estou é no preparo do encontro com a temida toxicidade, vou com minhas armas poderosas de uma saúde perfeita, gânglios perfeitos, exames perfeitos. Vou ao encontro do temido com o coração em pé, mostrando que também posso enfrentar esse dragão de fogo que vai arder as entranhas com a radio ou com a química contida na bolsinha que vou carregar feito canguru.
Eu sempre sou levada ao máximo, ao meu limite, que é quando as coisas acontecem....será que é porque sou osso duro de roer???  Ou os anjos me dão as mil possibilidades e a teimosa aqui vai pensando e escolhendo....demorando uma vida pra decidir??
Pois então, hoje resolvi escrever o que está acontecendo, pondo minha vontade de partilhar alinhada com uma incipiente veia literária sem educação alguma.
E o nome da série será “A TRAVESSIA DE UM DESERTO”, nome composto pelas inúmeras mensagens de amor e cumplicidade que tenho recebido.

Cair no lugar comum de agradecer e agradecer é bobagem, preciso agradecer de alguma outra forma, dizer a vocês que cada email, cada telefonema, cada alô está sendo importante nas escadas que levam à condução positiva do processo e ao meu equilíbrio inteiro. E é através desse relato que pretendo iniciar um trabalho de ajuda àquelas pessoas que necessitarem, honrando o apoio, a confiança e a amorosidade recebidos.
Essa experiência tem que ter algum sentido, não vou passar por ela sem tirar dela o máximo, em meu benefício e em benefício de quem estiver precisando. Talvez seja um relato que no futuro poderá servir de ajuda a quem estiver na mesma situação.
Ou, talvez, apenas a história de uma experiência.
Estou montando um blog, preciso juntar as dezenas de anotações que escrevi e que ainda pululam na minha cabeça, organizar e dar forma... assim poderei colocar pra fora de mim o que brota abundantemente e partilhar com quem tem interesse e com quem nem tanto, satisfazendo a  minha necessidade de troca com quem quiser ler as experiências e deixando um legado virtual.

Acreditem, tem muita coisa boa acontecendo, paralelamente.....o cinturão de amigas que se formou ao meu redor, é uma grande alegria... são emails aos montes, os telefones não param, sempre terei carona com todas que se oferecem para me levar... pessoas que pensaram apenas em mim ou deram falta da minha presença e que escrevem para saber como estou...amigas de muuuuito tempo que se fazem presentes nesse momento, outras que buscam coragem para mostrar os seus problemas também, amigas dispostas a dormir aqui em casa pra ajudar, enfim, considero isso uma dádiva, ter  tantas pessoas interessadas em ajudar num momento dificil e repercutir positivamente na vida das pessoas.
Isso é presente pra alma e sou grata a todas essas pessoas, do fundo do meu coração. Achei um amor um dos comentários, de que "um ser barulhento, quando silencia, algo está acontecendo"...hehehee....será que é comigo????
Abraço e reverencio carinhosamente  a todas essas corajosas companheiras de caminhada nessa vida, desejando do fundo da minha alma que sejamos todas cada vez mais felizes, nas etapas que estivermos, nas maneiras de vida que escolhermos, nas decisões que tomarmos, mas que sejamos verdadeiras, alinhadas com nossos propósitos, lembrando sempre que o nosso círculo nunca se rompe.


Preparativos.

      COR - Rua Orfanotrófio, em Porto Alegre.


08/02/11 - Quando entrei no  "instituto do câncer" pela primeira vez, levei mais um impacto e me dei conta de que nunca havia pensado que um dia passaria por esse nome como uma paciente.  Lá dentro pessoas com tantas histórias de vida, velhos, moços, pessoas tristes e alegres, tudo tão estranho. Mas se tenho que passar por isso, que seja da melhor forma possivel, com a alegria que eu puder ter e com a certeza de ficar curada.
E mais, dessa travessia na minha vida vou tirar ensinamentos, pra alguma coisa esse sofrimento tem que servir.
Fui ao médico homeopata, para companhar o trabalho dos médicos com um aumento da minha imunidade, não quero ficar enfraquecida, já estou tomando as medicações.
E já que me disseram que existe a possibilidade de que não caiam cabelos, a peruca deixo pra depois... ainda vou pensar se quero ficar morena ou ruiva....cabelos longos ou curtos? heim? heim? heim?  
Enfim, está tudo organizado para a semana que vem eu iniciar as aplicações.
Já estou mais calma, durmo muito bem, estou apenas muito apreensiva com a toxicidade do tratamento.
Isso ainda terei que vencer...logo eu que quase nem tomo remédio, só alquimias, homeopatias e florais...
Confiar....fiar com....